
Namorar, “ficar”, paquerar, “ficar de rolo”, apaixonar-se, gostar, casar-se, juntar-se, separar-se, divorciar-se...Quantos verbos há para expressar os tipos de relacionamento entre duas pessoas? Defini-los, porém. É bastante difícil e complicado... Por exemplo, paquerar exige paixão? Uma pessoa pode divorciar-se do ser amado? Depois que se casa, deixa-se de namorar?
Ter ou não ter namorados? Eis a Questão!
Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo.
Namorado é a coisa mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro.
Necessita de adivinhação, de pele, de saliva, lágrimas, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão, é difícil. Mas namorado mesmo, é muito mais difícil.
Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção.
A proteção dele não precisa ser parruda, decidida ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.
Quem não tem namorado é quem não tem um amor: é quem não sabe o gosto de namorar.
Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes, mesmo assim pode não ter nenhum namorado.
Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho.
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Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade ainda que rápida, escondida, fugida, ou impossível de durar.
Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas, de carinho escondido na hora em que passa o filme, e de flor catada no quintal da vizinha e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, de Vinícius de Moraes ou CHICO BUARQUE lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada, de ânsia enorme de viajar para a Escócia ( ou Alemanha) ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário.
Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos, quem não gosta de dormir agarrado, fazer a sesta abraçado, fazer compra junto, ficarem abobalhados pela lucidez do amor. Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai com ela para parques, fliperamas, beira d’água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical de Metro.
Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não se chateia do fato de seu bem ser paquerado, quem ama sem gostar, quem gosta sem curtir, quem curte sem aprofundar, quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim-de-semana, na madrugada ou no meio-dia de sol em plena praia cheia de rivais.
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Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho em paz, quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo e carinhoso.
Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de grilos e de medos, ponha a roupa mais leve que houver e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma de leves fricções de esperanças.
De alma escovada e coração aberto, saia do quintal, da janela, de si mesmo e descubra o seu próprio jardim.
Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela.
Ponha intenções de sinceridade em seus olhos e beba o licor dos contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteio.
Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido.
ENLOU-CRESÇA!!!
( Carlos Drummond de Andrade)